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COP30 em Belém: Flops Logísticos e Ausências Marcaram a Conferência do Clima Além do Texto Final
A 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP30), realizada em Belém (PA), chegou ao fim colecionando uma série de reveses que foram muito além da frustração com o documento final, o “Mutirão Global”. Embora o texto aprovado no sábado (22.nov.2025) tenha decepcionado especialistas e governos por não estabelecer um prazo para o fim dos combustíveis fósseis ou do desmatamento, o evento sediado na capital paraense foi palco de uma crise de logística, problemas estruturais graves e incidentes que ofuscaram o debate climático. Um dos primeiros sinais de que a COP30 não atingiria o peso político esperado foi a ausência de líderes globais chave, como os presidentes dos Estados Unidos (Donald Trump), da China (Xi Jinping) e da Argentina (Javier Milei). A dificuldade de estacionamento para aviões no aeroporto de Belém foi citada como um fator que levou muitos chefes de Estado a declinarem o convite. O presidente francês, Emmanuel Macron, compareceu por apenas um dia, ausentando-se da conclusão da Cúpula de Líderes. Para contornar a notória crise de hospedagem, marcada por diárias de hotéis que chegaram a ser dez vezes mais caras que o normal, o governo federal contratou dois navios de cruzeiro por R$ 71,7 milhões para servir como acomodação flutuante. A solução, embora mitigasse a falta de quartos, não impediu a baixa procura geral. A logística presidencial também gerou controvérsia: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama, Janja, ficaram hospedados no barco Iana 3, que precisou ser transportado de Manaus a Belém. O transporte consumiu, segundo o texto original, pelo menos 4.000 litros de óleo diesel, uma contradição flagrante com o esforço da conferência para limitar o uso de ombustíveis fósseis. A precariedade da infraestrutura montada foi um capítulo à parte nas dificuldades da COP30. Logo no primeiro dia (10.nov), um corredor do centro de mídia foi atingido por água da chuva, que vazou do telhado, encharcando o carpete. A falta de condições adequadas também se estendeu aos banheiros, onde a água faltou em diversos momentos. Os participantes enfrentaram altas temperaturas nos pavilhões, com reclamações sobre a insuficiência do ar-condicionado, e interrupções no fornecimento de energia. O desconforto motivou críticas implícitas, como a do chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, que manifestou alívio ao deixar a capital paraense. A insegurança e a série de infortúnios atingiram o ápice com dois incidentes: Tentativa de Invasão e Protesto: Na noite do segundo dia, um grupo de manifestantes, em sua maioria indígenas e ativistas, tentou invadir a Zona Azul (área restrita de negociações), resultando em danos a equipamentos e ferimentos em dois seguranças. Incêndio na Zona Azul: Na quinta-feira (20.nov), a um dia do encerramento programado, um incêndio atingiu a área de pavilhões de países, obrigando a evacuação imediata e a interrupção das negociações diplomáticas. Se a logística de hospedagem e a infraestrutura falharam, o setor de alimentação não ficou muito atrás. A praça de alimentação do evento praticou preços exorbitantes, com um prato de arroz de pato custando R$ 110 e um café espresso R$ 25 na sala de imprensa, valores muito acima dos praticados na cidade. Apesar dos custos elevados e da proibição de consumir alimentos não credenciados (por questões de segurança), o público enfrentou filas de até uma hora no horário de almoço. O clima de desordem foi completado por um incidente incomum: na véspera do encerramento, dois turistas estrangeiros caíram em um bueiro sem tampa na orla, próximo ao terminal de navios de cruzeiro. A série de dificuldades enfrentadas pelos participantes levou até mesmo a fotógrafa da ONU, Kiara Worth, a classificar a COP30 como “bíblica” em suas redes sociais. A imagem da conferência, que deveria ser um marco na agenda climática global na Amazônia, terminou marcada por uma sucessão de problemas que expuseram as dificuldades do país em sediar um evento internacional de tamanha magnitude.